segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

ENTRETANTO


Falando nisso, ainda tem aquilo.
Algumas roupas no armário
Um sorriso no rosto
Pouco do muito que em mim está.

Falando naquilo, ainda tem isso.
Uma agonia no espelho
Um segundo preso no tempo
Alguma vontade perdida no ar.
Falando em nada, ainda tem tudo.
Essa cara limpa
Esse pensamento sujo
Talvez um traço sem rabiscar.

Falando em alma, ainda tem corpo
Um desejo evasivo
Um silêncio morto
A loucura que chega sem anunciar.

Falando em silêncio, ainda tem a palavra
Um grito insistente
Algum termo novo
Letras que te decifram sem você notar.

Porque já não importa
Se sou verso, se sou prosa
Mas se visto a mesma cor que você vai me pintar.

(Dalila Lemos)

terça-feira, 26 de outubro de 2010

UMA GÍRIA, UMA HISTÓRIA

Aparentemente, não há nada anormal nos empregos novos: você recebe a notícia que o estabelecimento precisa de funcionários para preencher o quadro, envia seu currículo com entusiasmo e perde boa porcentagem desse ânimo no dia da entrevista – quando descobre o salário que vai receber.

Comigo foi basicamente isso que aconteceu, mas não me entreguei à desesperança do salário, apenas pensei na ótima oportunidade de fazer novas amizades e conhecer pessoas diferentes. Eu só não esperava que a tal diferença contida nessas pessoas faria com que eu não entendesse meia palavra do que elas dissessem.

Para quem não sabe, mudar de ambiente de trabalho pode ser tão complicado quanto visitar um outro país, cujo qual é adepto a um idioma que você desconhece. Os colegas de trabalho se comunicam utilizando gírias especificamente cotidianas, e você, que não passa de uma novata inexperiente, adota o famoso sorriso amarelo para fingir que está por dentro de todos os assuntos.

Lembro que, ao me demitirem de uma agência de publicidade, aceitei o primeiro emprego que apareceu. Então, caí nas garras de uma agência de telecomunicações terceirizada, que prestava serviço para uma empresa de telefonia no varejo. Resumindo: eu vendia celulares em grandes lojas do comércio.

Certa vez, trabalhando nas Casas Bahia, observei um funcionário gritando “ta adriano”. Não compreendi o ocorrido e, inclusive, cheguei à conclusão de que adriano poderia ser o nome de alguém que estivesse por perto. Uma funcionária respondeu ao grito dizendo “é izassa mesmo” e percebi o quanto eu estava enganada.

Na verdade, não entendia mais absolutamente nada. Se existisse algum teste capaz de identificar quem é ou não um terráqueo, eu não hesitaria fazer. Sentia-me como se fosse de outro planeta, pois aquelas palavras não pertenciam a nenhuma frase dos livros que já li.

Sorte é que a leitura não é a única responsável por ampliar o vocabulário. Costumo dizer que a convivência faz por mim coisas que ninguém faria... e foi convivendo que aprendi o verdadeiro significado daquelas palavras estranhas.

A expressão “ta adriano” era empregada com a finalidade de dizer que certo cliente estava tomando o tempo do funcionário e “izassa” representava aqueles clientes que perguntavam, pediam para olhar tudo, mas nunca compravam nada.

Vivendo e aprendendo, não é mesmo? Sinceramente, o conhecimento nunca é o bastante. Quando você pensa que sabe, percebe que ainda tem muito que aprender. Digo isso porque não bastaram as duas palavras primárias. Os funcionários criaram derivações para elas: “izassa”, carinhosamente, passou a ser “iza” e adriano (que não é um substantivo próprio e, sim, um verbo) deu origem ao “driô”.

É importante reforçar que ninguém também se contentou com as derivações. Delas surgiram as paródias, como por exemplo, uma referente à música extravasa da cantora Cláudia Leite, na qual cantavam isa vaza. Sem contar a propagação de “ta ligado” e “na moral” por toda a loja.

Citaria inúmeros exemplos se eu ainda trabalhasse lá. Só que agora, com esse novo emprego, sou escrava do “up down” e do “bicheiro”: gírias para uma outra história!

(Dalila Lemos)

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

CHUVA DE ALEGRIA

Jogo do Mengão no Raulino é sinônimo de chuva. Na primeira vez em que fui, pensei que o céu fosse desabar: chovia tanto, que meus pés afogavam com a água dos sapatos. O celular mal completava a ligação e, para ajudar, ainda havia a "hidrofobia" da minha mãe que insistia em me ligar (desesperada) tentando me convencer a desistir.

Quinta aconteceu quase a mesma coisa. A diferença é que não choveu tanto, só alguns pingos lá e outros cá na hora do jogo. Nada que desanimasse a galera! A partida, na maior parte, foi parada... mas a torcida manteve a animação do início ao fim.

Eu me entreguei ao sono por alguns segundos. Estava tão cansada, que fechei os olhos por instantes e adormeci. Nesse momento, ouvi gritos, cantos e batidas que me fizeram acordar assustada e ver que o placar marcava 1x0 pro Flamengo. Val Baiano fez o primeiro gol que, por coincidência, já estava previsto no post do meu namorado.

A torcida cobrou muito o time, pois os jogadores estavam com dificuldade em chutar a bola pro gol. Apesar disso, compensaram de uma outra forma: impedindo que os adversários tomassem a frente.

Me lembro que um dos jogadores do Atlético-GO conseguiu dominar a jogada e correu em direção ao gol. Quem amenizou a tensão dos flamenguistas naquele momento foi o Juan que, dinamicamente, roubou a bola do adversário. Confesso que, naquela hora, meu nervosismo foi às alturas: imaginei que a jogada não daria certo e o juiz marcaria um pênalti. Me surpreendi!.

Não esperava outro gol e lá veio o segundo! A torcida fazendo barulho, agitando o estádio, espalhando muita energia positiva pra mostrar que quem tá na chuva é pra se molhar mesmo!

(Dalila Lemos)

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

SOBRE SAPOS E PRÍNCIPES

Todos já ouviram falar sobre aqueles contos, onde a princesa, solitária, beija um sapo que se transforma num príncipe aparentemente magnífico. Pura ficção, não nego. Mas o que ninguém sabe é que na vida real também existem histórias sobre sapos e príncipes... um pouquinho diferente das imaginárias, é claro!

Na vida real, princesa não é princesa. É sempre uma pessoa com baixa condição financeira, tentando encontrar sua alma gêmea, acreditando firmemente na idéia de que é possível viver de amor.

Príncipes jamais são príncipes: são homens de uma natureza desnecessária que, por trás das suas juras de amor, escondem um par de olhos responsáveis por uma pesquisa quantitativa sobre o sexo feminino. Na maioria das vezes não são bonitos, nem educados, nem elegantes... muito menos ricos!

As bruxas, simplesmente, sofreram alterações etimológicas. São ‘piriguetes’, às quais o roteirista concedeu somente um papel: irritar as princesas! Geralmente são muito iludidas em relação às próprias aparências, são audaciosas, acham que podem tudo e nunca ouviram falar na palavra respeito.

Fada? Madrinha? Só se for de casamento! Essa espécie é a sofredora, agüenta os desabafos amorosos e não possui nenhuma varinha mágica para transformar lágrimas em doses de bebida.

Na vida real, nada é o que os livros descrevem. Experimente beijar um sapo e sentirá um gosto horrível na boca, enquanto espera por um príncipe que não existe e jamais aparecerá. E esqueça a idéia de que as princesas desfrutam de regalias... em terra de gente, essas beldades desfrutam apenas de uma tonelada de motivos (que as obrigam implorar a deus por mais um pouco de paciência).

(Dalila Lemos)

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

UMA VEZ, SEMPRE!

Hoje eu entendo, graças ao bordão do meu querido chefe e árbitro, Arnaldo César Coelho, por que optei por ser flamenguista. A REGRA É CLARA: muitas mulheres não se interessam por futebol.
Lógico que não posso generalizar, pois existem por aí umas fanáticas que choram quando o time perde, outras que compram briga quando falam mal de um jogador e até aquelas que sobem o meião e batem uma bolinha. Mas no meu meio é diferente: minhas amigas até riem de mim quando digo que vou assistir a um jogo do Flamengo. Algumas perguntam se faço isso por causa do meu namorado... e é nesse momento que eu agradeço pelo Bebeto não ter a mesma fama de antes.

Sim. As “Kaká-maníacas” que me perdoem, mas minha paixão por um jogador começou muito antes de 2001. Eu tinha quatro anos de idade quando assistia (obrigatoriamente) aos jogos do Vasco com minha babá. Apaixonada pelo Bebeto, ela dizia que não tinha time, apenas torcia pelo craque. Assim, a regra se tornava clara pela segunda vez e mostrava como as crianças são influenciadas pelos mais velhos.

Não demorou muito para que eu saísse enchendo o peito de orgulho e copiando frases da minha babá. Já me apresentava para os amiguinhos do colégio como ‘vascaína por causa do Bebeto’ e motivava alguns sorrisos adultos quando me perguntavam se eu trocaria de time caso o atacante mudasse de Clube. A resposta? Lógico que sim!

Três anos depois, meu ídolo foi jogar no Deportivo La Coruña. Sei que, de fato, já vestia outra camisa, mas sinceramente não tenho muitas lembranças dessa época. Eu era somente a garotinha que seguia o jogador.

Em 96, Bebeto jogava no Flamengo e eu já me apresentava com frases rubro negras. Aparentemente estava tudo bem e igual às outras ocasiões, a diferença só se fez presente quando o jogador largou o Clube.

Inédito! Pela primeira vez eu tentava convencer todo mundo de que havia enjoado de acompanhar um astro que mudava de time constantemente. Dizia que não era o fim da minha paixão, apenas uma escolha pessoal. Pode parecer estranho para uma garota de oito anos, mas meus argumentos eram exatamente esses.

Por fim, deixei de lado aquele fanatismo sem nexo e passei o restante dos anos gritando “Mengão”. Até que certa vez, numa tarde ensolarada de domingo, fui a um showbol em que o Bebeto estava jogando e a regra se fez clara pela terceira vez: a televisão ilude os telespectadores.

Eu estava diante do antigo colírio dos meus olhos que, atualmente definido por mim, não passava de uma pessoa baixinha e simpática. Confesso que dei risada, sozinha, durante alguns minutos e agradeci por nunca ter deixado o Flamengo.

(Dalila Lemos)

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

SÍNDROME DE PETER PAN


A favor da experiência, resolvi pintar minhas unhas de verde fosforescente. Coisas de mulher: salão, tinta, espera (e haja espera!). A cada mão de esmalte um pensamento diferente estagnava em minha mente. Lembranças vieram à tona.

Quando eu era adolescente testava meus limites por opção. Além das inúmeras roupas, que hoje eu chamaria de figurino, tinha o costume de usar esmaltes coloridos, alternando uma cor em cada unha.

Era uma boa época, em que eu descobria minha personalidade com ajuda dos erros. Sentia-me livre e preparada para curtir a vida. Não que atualmente me sinta presa ou despreparada, mas o excesso de responsabilidades explica claramente essa diferença.

Não havia necessidade de trabalhar, a única obrigação era o estudo que, ainda assim, permanecia incomparável com os de hoje. O relacionamento com os meninos era diferente: a inocência somada à curiosidade resultava em consideração, um respeito pelo tempo. E assim amávamos, sem muita pressa nem muita disputa! Os criteriosos chamavam de bons momentos, os sonhadores denominavam paixão e os exagerados até hoje estão em dúvida entre a pior e a melhor coisa do mundo... pra mim eram as duas juntas.

O relógio preso na parede do salão adiantava o tempo lentamente, mas na minha mente o ponteiro andava em sentido anti-horário. Eu pensava nas tardes em que tomava banho de chuva, nos encontros do shopping, nas cartas das amigas, noites em claro, televisão ligada. Quanto mais menina me fazia a imaginação, mais o pensamento retrocedia nas épocas.

Foi quando voltei em outros anos. Lembrei da bola rolando ladeira abaixo, fazendo companhia para os pés descalços que brincavam de queimada, pulavam amarelinha e corriam no pique-pega. Pensei no meu pai e nos raros momentos que passávamos juntos pescando, fazendo pizza, acendendo fogueira ou apenas remendando um fio de eletrônicos. Na cabeça havia espaço para todos os momentos: desde o colégio, com merendeira na mão e maria-chiquinha no cabelo, até invenções que eram vendidas por mixaria nas ruas.

Encontrei em mim uma síndrome de Peter Pan. Sintomas que me admitem a enorme vontade de voltar e parar no tempo. Desejo de viver num mundo onde as pessoas bebem água da fonte da juventude.

Uma voz veio de longe, em um tom baixo, quase incompreensível. Era a manicure pronta para receber seu pagamento e atender a próxima cliente. Dei o dinheiro para ela, levantei e me despedi.

Já em casa, olhando aquelas unhas em tons de marca-texto, resolvi me libertar do calendário e me entregar para o mundo. Foram necessárias poucas idéias para que eu descobrisse que o bom da vida é viver, independente da idade, das responsabilidades ou pretensões. Busquei um vidro de acetona, tirei o esmalte verde, substituí pelo branco. E senti que pra mim pouca coisa tinha mudado.

(Dalila Lemos)

UM SONHO PRA TODOS


Pode ser que um dia você acorde com o sol batendo em seu rosto, abrindo seus olhos lentamente, tentando lhe mostrar o caminho correto. E enquanto anda por avenidas desconhecidas, hesitando entender o significado das placas, um vento traga o medo e leve seus princípios. É nesse momento que uma nuvem toma conta do céu, roubando as cores da sua manhã que já não é mais ensolarada.

Você poderia reverter toda essa situação se não fosse o medo de chamar o sol pedindo que ilumine a terra. Poderia decorar o céu se não houvesse o medo de transformar as nuvens em algodão doce. Conseguiria traduzir as placas se não existisse o medo de mudar sua direção. E até mesmo os traços, os pontos, as formas... ficariam coloridos se você não sentisse medo de errar os tons.

O mal de tudo é fechar a garganta e não enxergar que uma pergunta pode trazer, no máximo, um não como resposta. É trancar a gaveta e sentir temor de rever fotografias antigas. É reprimir vontades e deixar de fazer o que quer por receio de errar, mesmo sabendo que de erros são feitos os acertos. Sentir frio e apagar o fogo. Sentir saudade e desligar o telefone. Sentir fome e beber água.

Enquanto a TV te consome, pode ser que você durma com a chuva molhando seu corpo, lavando sua alma e te fazendo sonhar com um mundo onde as pessoas pedem, perguntam, tentam, fazem. Talvez assim, você acorde com vontade de gritar seu sonho para que todos sejam convidados e, ao invés de um não, ouvirá “sim” infinitos, ecoando por todo esse universo onde o medo é proibido e os dias mais agradáveis.

(Dalila Lemos)


PURA ESCASSEZ

O dia tem 24 horas. Tendo em vista o fato de que é necessário dormir pelo menos 8 horas, restam 16 horas para fazer uma infinidade de coisas como acordar, tomar banho, comer, escovar os dentes, pegar ônibus, ir pro trabalho, almoçar, pegar ônibus de novo, ouvir música, tomar banho novamente, assistir aula e, por fim, a mais importante delas: lembrar daquela sua professora de português da terceira série que encomendaria sua morte se visse as palavras “horas” e “tempo” sendo repetida tantas vezes.

Pelos motivos acima citados, proponho uma observação: o tempo que temos não costuma ser suficiente para que possamos fazer programas agradáveis como sair com os amigos, beber alguma coisa, colocar a conversa em dia, namorar e etc. Isso acarreta em noites mal dormidas, pois precisamos roubar algumas horas de sono para que o cotidiano não seja feito apenas de compromisso.

Como se não bastasse tanta afobação, ainda corremos o risco de perder alguns momentos preciosos com pessoas macambúzias que, de uma forma ou de outra, precisam manter o contato e a comunicação. Essa parte não é apenas cansativa como um tanto quanto estressante.

Não é justo falar em pessoas macambúzias sem citar uma outra espécie que requer cuidados específicos, como a dos ‘arrimos’. Em situações como essa penso até em ligar pra tal professora de português, mas olho para o relógio e decido explicar por aqui mesmo: arrimo é uma palavra usada gentilmente para substituir outra, que seria encosto. Sendo mais específica, diria que esse tipo de pessoa, ou melhor, esse tipo de palavra, agride o vocabulário de qualquer ser humano e mostra como há iniqüidade no mundo, já que somos obrigados a perder o pouco tempo que nos resta tentando não empregar essa palavra nas frases da nossa vida.

Frases por frases, diria que todas essas já escritas foram desenvolvidas com a finalidade de mostrar que não sobra tempo para nada, nem para os santos. Tomemos um exemplo: existe o São Longuinhos - que é o responsável pelos objetos desaparecidos, o São Pedro - que é responsável pela chuva, o Santo Expedito – responsável pelas causas impossíveis e mais um acervo de santos para um cúmulo de funções. Agora uma pergunta que não quer calar: você já ouviu falar em alguma santidade responsável pelo tempo? Não existe! O tempo não foi o suficiente para essa criação ou, no mínimo, as horas foram escassas para que pudessem divulgá-lo.

E não é só com os santos. A própria natureza, apressada, foi obrigada a inventar qualquer animal ao invés de três e nomeá-lo como ornitorrinco (um mamífero, com bico de pato e pêlo). A nossa língua pátria foi forçada a substituir a expressão “vós micê” por “você”, a fim de economizar um único segundo. As pessoas foram coagidas a viver sob a citação do “não deixe para amanhã o que se pode fazer hoje”. Todos esses exemplos para ilustrar a falta de tempo habitual.

Por essas e outras (e muitas outras) que afirmo: os dias deveriam ter, no mínimo, 36 horas. Concorde quem quiser, afinal, pra mim, uma boa opinião é como tempo: pura escassez!

(Dalila Lemos)

PASSAGEM

A porta está aberta: o silêncio já pode entrar! Aqui não venta forte como lá fora e as gotas não vêm da chuva, são apenas lágrimas. É choro de criança que gosta de brincar de pique-esconde. São pingos na janela, nas cortinas, no chão. É coisa de gente nova ou velha...mas é coisa de gente. E gente que é gente tem seu espaço ao entrar por essa porta.

A tristeza precisa de companhia. Arrume as malas e traga a saudade, a fantasia, o delírio e o que mais couber na bagagem. Mas não demore, e por favor, venha calado. Assim o quarto fica cheio de segredos.

As chaves trancam e abrem os desejos. Os lençóis cobrem e descobrem o medo. A realidade se transforma num rabisco.E por mais que blasfemem, sempre há espaço para que o silêncio fique entre beijos e palavras.

É possível acordar sob as condições do relógio e, junto à pressa dos ponteiros, colocar um guarda-chuva na bolsa. Lá fora, quem mastiga o infinito faz seu próprio tempo e caminha em passos lentos para se divertir com a tempestade.

Sexo. Sonho. Súmula. Saliva. Meu céu é o inferno! Aqui dentro, sem saber pra onde vão os gostos, as noites, os dias. Sem saber de hoje, amanhã, de nada e nunca. Apenas ouvindo o vento. Insistente. Teimoso. Determinado. Tentando trancar a porta que eu sempre deixo aberta.

(Dalila Lemos)

POUSO DAS FADAS


Eram fadas.
Lindas, coloridas, mágicas!
Voavam sob as águas,
Cercavam as árvores.
Sumiam e apareciam abstratas.

Músicas e tons.
Ponteiro do relógio,
Parado. Ao contrário.
Mudavam o espaço
Contornando os traços
Fazendo estilhaços de uma realidade em vão.

  Eram fantasias.
Espelhos refletindo o planeta,
Sorriso de criança trancado na gaveta,
Era apenas imaginação.

(Dalila Lemos)