quarta-feira, 25 de abril de 2012

DIGA SIM AO NÃO

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Existem duas certezas na vida: a morte e o não. Nós vivemos com a convicção de que um dia morreremos e convivemos com a existência do não durante nossa trajetória. E mesmo com ambas as evidências, ainda há quem sinta medo.

Costumo dizer que o medo é um grande destruidor de sonhos. Quando o sentimos, deixamos de fazer. Quando o tocamos, deixamos de estar. Quando o aceitamos, deixamos de ser.

Muitos recusam voar alto por sentir receio do tombo. Para não errar, nem tentam. Para não perder, nem lutam. Para não morrer, não vivem. Esses são os atalhos utilizados na tentativa de fugir do não.

O que me entristece é saber que fazem da certeza uma dúvida. “E se eu não conseguir? E se eu sofrer? E se eu não ganhar?”. É simples: o não já existe. A consequência das tentativas é o sim. Se tentarmos e for inatingível, não faz diferença: estaremos na mesma estaca. Mas se durante a tentativa nós conquistarmos o sim, daremos passos largos para uma etapa melhor.

Conselho bom custa caro, contudo, não pretendo precificar minha recomendação. Sugiro que não tenham medo da vida nem alimentem o medo do próprio medo. Amem hoje, tentem agora e não esperem o fim do jogo para fazer apostas. Não destruam os sonhos: Mudem. Arrisquem. Abram a boca. Digam sim para o não, pois aceitá-lo significa se abrir para o mundo e as coisas boas só chegam até nós quando reservamos um espaço para elas.
(Dalila Lemos)

sexta-feira, 13 de abril de 2012

SIMPLESMENTE TRISTE

O mundo é realmente complicado. Há quem critique minha angústia como se eu tivesse a santa obrigação de viver feliz. Será que devo me entregar a essa hipocrisia? Imagina!

A tristeza só é ruim quando deixa de ser um estado e passa a ser uma condição. Fora isso, é natural... Afinal, nossos dias são recheados de sinônimos e antônimos, prós e contras, altos e baixos, positivos e negativos e, principalmente, de felicidade e tristeza.

A maneira como cada um lida com os sentimentos é questão pessoal. Conheço muita gente triste que se esconde nos personagens de teatro. Algumas se trancam, outras fogem... Tem gente até que descarrega a melancolia nos copos de cerveja, nos maços de cigarro, nas compras fúteis ou na gordura de fast foods. Conheço também pessoas capazes de jurar que são sempre felizes.

Maquiar a cara com um sorriso e nunca lavar o rosto é farsa. Todo mundo um dia fica triste! Do pobre ao rico, do magro ao gordo, do fracassado ao bem sucedido. Tristeza é tristeza: não depende de cor, credo ou classe social. Príncipes se entristecem, bruxas também.

Sou eu quem pode dizer “fala sério”. E falo. Porque não estar feliz é tão normal quanto não estar inspirado. Não estar feliz é tão comum quanto não estar satisfeito. Não estar feliz é tão verdadeiro quanto não estar disposto.

A tristeza é distinta da felicidade (óbvio)! Contudo, as duas se assemelham a outros opostos (que também se completam).

Às vezes, basta o silêncio pra falar mais alto. Basta a luz para que a sombra apareça. Basta o medo para que se crie coragem. E basta tristeza para que se encontre felicidade.

Enquanto estamos tristes, somos apenas alguém demonstrando um sentimento. Triste mesmo é não sentir!
 
(Dalila Lemos) 

SOLOS ANALGÉSICOS

 Naquele quarto escuro, os solos de guitarra se transformavam em analgésicos. Ela precisava amenizar a dor. E aumentava o volume. Depois espalhava as cobertas. Deitava. E adormecia.

Os sonhos estavam sem cor. No máximo um rabisco negro se compunha em forma. A mente também estava escura: o telefone não tocava, a voz não chamava, o dia não chegava nunca.

Pela janela afora, via-se a paisagem em silêncio. Chovia gotas de solidão. Ventava desejos perdidos no tempo.

Os ponteiros corriam contra o relógio.

Janeiro não fazia calor.

Carnaval não tinha fantasia.

Seresta não tinha violão.

Saudade não tinha nome.

Acordava em busca de si, enquanto os solos de guitarra se repetiam. Ela precisava amenizar a dor. E diminuía o volume. Depois juntava as cobertas. Sentava. E acordava.

A vida estava sem cor. No máximo uma linha nude traçava o destino. O pensamento também estava monótono: a ansiedade não acabava, a indiferença não a deixava, o dia não chegava nunca.

Os ponteiros paravam dentro do relógio.

Janeiro não tinha trinta e um dias.

Vontade não tinha sinônimo.

Ela não tinha nome.

(Dalila Lemos)

sábado, 28 de janeiro de 2012

JIBOIAR É O QUE ME RESTA

Gosto de aprender coisas. É certo que, até hoje, não aprendi a segurar minha língua durante situações inoportunas. Também não aprendi nenhuma técnica que me torne menos transparente. Mas tudo bem: de falsidade eu não morro! Agora vamos ao que interessa.

Ontem me ensinaram um verbo cujo qual nunca fez parte da minha vida: jiboiar. Achei estranho quando, imediatamente, pensei em uma cobra. E que curioso! Não me enganei! A palavra foi inventada para comparar o processo alimentar de uma jiboia ao momento de autorreflexão.

A jiboia é uma serpente comprida, com a boca muito dilatável, que se alimenta de pequenos mamíferos. Ela não mastiga as presas, apenas as sufoca até a morte e as engole. Obviamente, digerir um animal inteiro é uma tarefa difícil que pode levar dias ou até semanas. Isso explica o termo que minha amiga inventou.

Algumas vezes, a vida nos traz presas em forma de notícias. Para sobreviver, somos obrigados a engolir os fatos de uma só vez, sem mastigá-los. Em um primeiro momento, as notícias passam por nossa garganta de modo desagradável e nos deixa entalados. Aos poucos, os acontecimentos desintegram em nosso organismo até que o processo digestivo termine.

Jiboiar é isso: digerir lentamente uma dor, engolir de uma só vez o sofrimento até que ele se decomponha dentro de nós.

Somos parecidos com as serpentes. A diferença é que o alimento que nos faz sobreviver, também nos faz chorar. Sentimos muito por engolir o amor errado, a perda, o dia ruim, o estresse do trabalho.

Agora, por exemplo, eu sinto por digerir duzentos batimentos cardíacos por minuto. E se alguém perguntar o que está acontecendo, é uma boa hora para responder: “estou apenas jiboiando”.

(Dalila Lemos)

SOBRE UM OLHAR


Não se faz mais canções como antigamente! Posso dizer isso ao ouvir "O bêbado e a equilibrista" - uma composição de João Bosco. Perfeição é a palavra que descreve a interpretação de Elis Regina e genial é o adjetivo que escolho para a letra da música. Vejam só:

Caía a tarde feito um viaduto

E um bêbado trajando luto me lembrou Carlitos

A lua tal qual a dona do bordel

Pedia a cada estrela fria um brilho de a...lu...guel

E nuvens lá no mata-borrão do céu

Chupavam manchas torturadas, que sufoco louco

O bêbado com chapéu coco fazia irreverências mil

Prá noite do Bra...sil, meu Brasil

Que sonha com a volta do irmão do Henfil

Com tanta gente que partiu num rabo de foguete

Chora a nossa pátria mãe gentil

Choram marias e clarisses no solo do Brasil

Mas sei que uma dor assim pungente não há de ser inutilmente

A espe...rança dança na corda bamba de sombrinha

E em cada passo dessa linha pode se ma...chu...car

Azar, a esperança equilibrista

Sabe que o show de todo artista

tem que continuar


O bêbado representa os artistas que resistiam ao Governo e lutavam pela liberdade. A equilibrista ilustra a esperança de democracia contida num projeto de abertura política gradual.

Na década de 70, um viaduto de Belo Horizonte desabou sobre carros e ônibus. Várias pessoas morreram e nada foi noticiado. A primeira frase da música esclarece tal acontecimento.

O luto está associado ao desaparecimento de militantes de esquerda, assassinados sob tortura. Carlitos é o personagem mais famoso de Charlies Chaplin: um andarilho, sem dinheiro no bolso, que veste um paletó apertado, usa chapéu-coco e bengala.

Mata-borrão é um objeto utilizado para absorver o excesso de tinta do texto escrito com pena ou caneta tinteiro. No contexto, significa um meio de neutralizar as manchas da tortura.

Henfil foi um cartunista, escritor e jornalista brasileiro considerado um despótico inimigo da ditadura e do falso moralismo brasileiro. O irmão dele, Betinho, foi um sociólogo à frente da AP (Ação Popular) que partiu para o exílio em 1971.

Rabo de foguete é uma expressão usada para representar situações de perigo. Ou seja: aqueles que se manifestavam contra as formas de coação, colocavam as vidas em risco e eram obrigados a se exilar.

A mãe do Henfil chamava-se Maria. Clarice era a esposa do Vladimir Herzog - jornalista assassinado durante o regime militar. Marias e Clarices, no plural, representam as mães, irmãs e mulheres que trocaram as vidas pelo ideal da liberdade e da expressão.

A esperança é a expectativa de ver o Brasil livre e a corda bamba de sombrinha é o obstáculo político. A cada passo dessa linha, desse desejo, o sonhador pode se ferir. Azar: que se machuquem! Pois o show de todo artista tem que continuar!

Lindo, não?!? Música pode ser apenas música, mas um olhar é sempre mais que isso. Aliás, o olhar é sempre mais que tudo: é o que faz a diferença, o que muda, move e fica.

(Dalila Lemos)

NOVOS DIAS PRA RECOMEÇAR

Há vinte e três anos é o que vejo: um novo ano se aproxima e tudo fica cheio. O cérebro enche de planos, a agenda lota de compromissos, as orações transbordam promessas e os pensamentos acumulam novidades. Até a academia enche!

É estranho pra mim. Não quero ser um sujeito importuno, mas prefiro analisar o que acontece ao meu redor a me trancar num quarto, cruzar os dedos e sussurrar: "ano novo, vida nova!".

Acredito no novo, pois acredito no mundo. E o mundo se transforma a todo momento! É por isso que eu não considero adequadas as mudanças planejadas só para um determinada época, mas no geral é assim.

O dia trinta e um de dezembro é dominado pela fala. Alguns dizem que vão cuidar mais do espírito, outros dizem que vão dar mais atenção ao corpo. Alguns afirmam que vão comprar mais, outros contam que vão gastar menos. Em segredo, há quem diga que vai conquistar um novo amor. Aos berros, há quem jure reconquistar um amor antigo. Assim, entre juras, confidências e afirmações, o dia se enche de palavras.

O que parece certo, torna-se questionável: afinal, até quando essas palavras são levadas a sério? Um mês. Dois. Quem sabe três! Depois disso, já não custa esperar o réveillon.

Para mim, não importa a época! É melhor que não exista data para pensar, planejar, agir, concluir. É melhor que não exista, pois o tempo não deixa de ser tempo só porque mudou o ano.

É por isso que eu ainda espero que as pessoas apostem mais em si mesmas. Espero que todos se surpreendam com os acontecimentos e façam acontecer porque tem de ser feito, não apenas pela mudança de uma nova era.

(Dalila Lemos)

CÃES, ESCOLHAS E SERES HUMANOS

Às vezes, quando parece que o mundo vai acabar, ela chega. Sempre carente, mas alegre. Sempre festiva, embora quieta. Me olha com um olhar de quem esperou por mim o dia todo, como se nada mais importasse. Depois, deita no chão e me pede carinho.

"Ela" é a Bebel, minha cachorra. É tão adorável quanto os outros cães, mas há algo diferente que a deixa mais especial: ela me faz sentir especial, até nos piores momentos. Sinto um amor que não cura outros amores, porém ameniza.

Prefiro os bichos aos seres humanos, pois as pessoas nos substituem e eles nunca. Humanos são feitos de uma matéria ruim: sentem inveja, indiferença, pudor. Pessoas são pessoas e só. Se limitam aos erros, dão mais importância ao cérebro que ao coração. Acho que isso explica meu amor pelos animais. Mas eu não quero falar dos caninos de um modo geral. Quero contar sobre escolhas.

Escolhas podem ser involuntárias ou não. Podem ser certas ou erradas. Podem ser para a vida toda ou apenas para um momento único. O fato é que as decisões às vezes machucam a gente e fazem doer quando apostamos em algo sem perceber que é em vão.

Hoje vejo que me machuquei com uma de minhas decisões. E, pra piorar, me apeguei tanto a ela que não me sinto capaz de substituí-la por outra. Em contratempo, outra decisão que tomei em minha vida nunca se fez negativa.

Lembro-me como se fosse ontem: ela estava na rua, perdida. Chamei por ela - que me olhou com um olho de cada cor e deitou no meu colo. Levei a Bebel pra casa. E agora, enquanto as orelhas dela se enfiam nessas entrelinhas, eu me sinto capaz de perceber que as melhores escolhas são aquelas que nos escolhem.

(Dalila Lemos) 

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

MEU MORANGO VAZOU

Integridade não tem preço? Mentira! Ela custa R$ 18,60 somada a R$ 11,75 do frete, nos sites de compra coletiva. Cheguei a essa conclusão de manhã bem cedo, quando abri a sacola em que um pote de morango estava guardado. O líquido vermelho da fruta silvestre vazou e manchou todas as páginas do livro que minha professora de português me emprestou.

Nunca foi tão desvantajoso manter uma alimentação saudável. Passei fome e ainda estraguei uma editoria sobre o inventário histórico e político da canção popular moderna brasileira. Sem contar o martírio que carreguei em pensamento por ter cogitado a possibilidade de entregar cento e noventa páginas sujas, com a cara mais limpa do mundo.

Definitivamente não me pareceu justo agir de tal forma e por esse motivo eu decidi a respeito. Liguei para a minha mãe, afinal, são às mães que maioria de nós recorre em momentos de aflição. Quando ela atendeu a ligação, fiz voz de decepcionada.

- Tenho uma notícia para te dar.

- O que foi, minha filha? Notícia boa ou ruim?

- Boa e ruim, simultaneamente.

- Como assim, querida?”

- Infelizmente preciso usar o cartão de crédito que te entreguei como prova da minha vontade de fugir das dívidas.

- Mas o que aconteceu?

- A Bia Pacheco, professora da faculdade, me emprestou dois livros que eu sempre protejo com alguma capinha ou saco plástico. Mas justamente hoje, que os livros corriam perigo, meu pote de morango vazou. Um dos livros ficou todo manchado. Não posso devolvê-lo nessas condições.

- Minha filha, você precisa se benzer.

- Mas, mãe, pense pelo lado positivo: pelo menos o outro livro está intacto. Além do mais, eu estou adorando ler sobre MPB. Esse assunto me interessa muito e vai ser legal ficar com o livro manchado.

- Quanto vai custar a brincadeira?

- Dezoito reais mais o frete.

- Anote aí os dados do cartão. E não desista da ideia de se benzer.

Acessei a internet e efetuei a compra do livro. Quando recebi um e-mail dizendo que o pagamento foi confirmado, minha consciência se aliviou.

Um pouco mais tarde, comentei sobre o ocorrido com um amigo (que também é professor). Depois de inúmeras gargalhadas, ele disse que já viu um caso parecido com esse: uma gata que estava no cio, subiu na mesa, se esfregou em um livro e sujou várias páginas com sangue.

Fiquei intrigada com aquela história. Antigamente, eu pensava que os gatos eram animais pansexuais. Mas me enganei: os felinos são cultos!

(Dalila Lemos)




sexta-feira, 16 de setembro de 2011

MEU DISCURSO SHAKESPERIANO

Lembro-me bem: há quatro anos eu estava prestando vestibular e hoje estou há poucos passos da formatura. Não, eu não pretendo discutir sobre a vida de um modo clichê. Quero apenas mostrar que o tempo pode ser infinito para quem se entrega de verdade.

Em quatro anos, tive um vasto aprendizado:

Aprendi a respeitar as diferenças e a individualidade das pessoas.

Descobri que energia positiva atrai energia positiva e que errar mais de uma vez também é humano.

Entendi que humildade pode significar mais que experiência e que experiência não se adquire nos livros.

Aprendi que belas amizades podem acabar por não serem tão belas assim.

Entendi que personalidade não se compra em embalagens de tinta para cabelo.

Descobri que amar os animais é doar um pouco de si ao mundo e que o mundo não é um papel chamado dinheiro.

Aprendi que o silêncio diz muito e que muito pode significar nada para alguns.

Descobri que o sorriso contagia, que a inveja destrói e que a força do bem sempre vence.

Olhei a natureza e entendi que Deus existe. Revi algumas fotografias e compreendi a importância do perdão. Refleti por alguns instantes e descobri que todo esse aprendizado só foi concedido a mim porque me permiti aos desacertos e à incerteza de que a vida pode ser do meu jeito.



(Dalila Lemos)


NOITES DE OUTONO

Quando amanhecia, o sol iluminava as projeções mais audaciosas de Niemeyer e meus olhos contestavam a paisagem matutina do Planalto Central. Mas bastava anoitecer e o céu de Brasília enfeitava meu desencanto. Eu passava horas admirando as estrelas e toda infinidade que cobria meus pensamentos.

O lago Paranoá escondia sua artificialidade por baixo dos arcos da ponte JK. As luzes do Palácio Itamaraty refletiam em mim alguns versos contemporâneos e as curvas da Catedral moldavam a cidade. No escuro, eu era capaz de tudo: enfrentava o medo, esquecia a insegurança, exonerava a saudade.

Eu gostava de andar sem rumo pelas ruas. À noite elas ficavam tão parecidas que contradiziam coincidências! Algumas vezes, eu me perdia em um ou outro quarteirão, mas não demorava muito para encontrar algum restaurante que me fizesse ter a certeza de estar perto de casa. Sentava-me sempre ao fundo, em alguma mesa encostada na parede. Bebia alguns drinques, comia alguma coisa e ouvia um pouco de música.

Voltava pelas mesmas ruas, com os mesmo pensamentos, debaixo do mesmo céu. Subia dez andares de elevador, entrava pela porta da cozinha e tomava o terceiro banho. Já vestida, ligava o computador e fixava meu olhar nas mensagens instantâneas que tanto me ansiavam. O anoitecer me consumia ali: no sentimento mais forte, na vontade mais distante.

Hora ou outra eu caminhava até a cozinha e acendia um cigarro na janela. Parada, ouvia o silêncio da madrugada e observava as últimas luzes que se apagavam. Mas não demorava muito e lá estava eu: escrevendo e-mails, ouvindo música, ligando a webcam.

Quando menos percebia, o relógio já marcava cinco da manhã. A ocasião me fazia estender um colchão e algumas cobertas. Debaixo do travesseiro eu escondia desejos, guardava imagens e esquecia o mundo. Minhas paixões adormeciam junto com a certeza de que o amanhecer levaria tudo embora.

(Dalila Lemos)