quarta-feira, 15 de setembro de 2010

AMOR EM VERSO

Além de diplomata, jornalista, compositor e poeta, Vinicius de Moraes foi um marido nônuplo. Casou-se nove vezes nas entrelinhas de suas frases. Com certeza disse a todas esposas que amava, e amava exageradamente.

O fato é que uma só pessoa não ocupa todo o sonho de uma poesia. Somos indivíduos, estamos ligados à individualidade e ao individualismo. Somos únicos e diferentes uns dos outros. Isso significa que é possível encontrar no outro o que falta em nós mesmos, e vice-versa. E vice. E verso.

Nos complementamos em todos os sentidos. Algo como uma equipe de super-heróis, onde cada um tem um poder diferente. Heróis que sozinhos não conseguem cumprir suas missões, mas juntos se surpreendem a cada desafio.

É simples sentirmos vontade de nos esquentarmos debaixo de sol ou nos resfriarmos com a chuva. O difícil é ter ambos os desejos ao mesmo momento, pois dependeríamos da natureza e não apenas de nossas pretensões.

Assim são os relacionamentos: os anteriores diferentes dos atuais, os atuais diferentes dos posteriores. Todos exclusivos, singulares e particulares devido à individualidade que nos torna desiguais. Se percebêssemos isso, entenderíamos com mais saber por que deixamos algumas pessoas e por que outras nos deixam.

De toda essa disparidade é feito o poeta. Bastaria amar apenas uma vez ou uma só pessoa na vida, para que Vinícius de Moraes respirasse prosa ao invés de poesia. Contentaria qualquer paixão eterna ao invés da pergunta “quem pagará o enterro e as flores se eu morrer de amores?”.

(Dalila Lemos)

segunda-feira, 22 de março de 2010

ATRAVÉS DA JANELA

O celular tocou. De fato, não era nenhuma amiga louca ou ansiosa ligando em horários incompreensíveis para contar história néscia. Era apenas o despertador, vibrando no ritmo de uma melodia calma que ilustra a famosa 6h30 da manhã.

Completamente contra a função soneca, pensou no que fazer assim que abrisse os olhos: tomar banho? Trocar de roupa? Preparar um suco de laranja? E decidiu começar seu dia diferente, estampando o rosto com um sorriso e empregando uma gíria jovem que substitui o clássico bom dia.

A casa se resumia a sonhos interrompidos pelo barulho dos sapatos. Adormeciam menos tranqüilos que antes, mas aproveitavam o que restava do tic-tac dos relógios. Pela janela dava pra ver o sol brigando com a nuvem que, por sua vez, tentava ocupar todo espaço do céu. Pegou um paletó, abriu a porta e pisou no asfalto

Na rua, uma realidade distinta: as pessoas se transformavam em quadros, onde a moldura era exatamente a mesma janela que servia de apoio para imaginações e anseios. Elas eram paisagens imóveis, com vida apenas nas cores e nas formas. Eram mendigos esticando as mãos, crianças vendendo doces, vozes repetidas de reclamações.A cada passo que dava, mais entendia a loucura do mundo e insistia em seus pensamentos de que estava tudo errado.

Não deveria existir TV para vender manipulação, jornais para divulgar tragédias, músicas para estimular a pornografia. Por essas e outras as pessoas se entregavam e tornavam-se parte de um vazio de lamentações.
Cansada de tanta insanidade por tão pouca conveniência, sentou-se num banco de praça e fantasiou outra realidade. Neste momento, enquanto usava as mãos para segurar o copo de café e ler um livro, ouviu alguém dizer que não pertencia a esse mundo. Como em desenhos animados, apenas lembrou-se do primeiro ato do dia e fez daquele sorriso um escudo. E já não precisava se preocupar, apenas viver cada momento.

(Dalila Lemos)

INVENÇÃO DOS DEUSES

Você que está aí perdendo cinco minutos preciosos do seu dia apenas para ler esse texto, concentre-se. O assunto é sério! Mas antes de qualquer coisa, guarde seu lenço de papel, seu CD do NX Zero e entenda que não vamos falar de amor nem de morte. Portanto, fica expressamente proibido chorar.

Apresento já a invenção dos deuses! Algo útil, benfeitor, essencial ao dia-a-dia! Tão bem bolado que foi patenteado em inglês, como uma analogia aos produtos do Polishop TV. Tão criativo que possui um sistema integrado que permita uma programação individual, ou seja, cada um usa do jeito que quer.

O Boff (button off) é resultado de 21 anos de experiências, pesquisas e trabalho árduo no campo de preleção alheia. Foi desenvolvido especialmente para que a fala de outra pessoa seja apenas um som vagando no espaço e não um motivo para que você sinta receio de fazer o que tem vontade.

Esse indispensável botão superou as expectativas de profissionais em diversas áreas do mundo e, hoje, concorre ao prêmio Nobel de produtos multifuncionais, tendo uma aceitação maior que os aparelhos de MP100.O Boff não está disponível nas melhores lojas, e sim nas melhores mentes. Basta você pensar nele e... pronto, já pode usar!

Ele é compacto, cabe até nos menores cérebros. É rápido, proporcionando resultados instantâneos entre você e a pessoa que ousa abrir a boca para julgar suas atitudes. É dinâmico, pois possui a função automática capaz de decidir uma reação por si próprio. É econômico e permite que você não gaste suas energias com futilidade.

Agora fica fácil vestir aquela roupa fosforescente e ouvir alguém dizer que você está parecendo uma pilot marca texto... o Boff é um estilo “que se dane” de ser. Esse botão afrodisíaco ajuda a timidez a se transformar num beijo em público.Com ele, ninguém nesse mundo precisa se preocupar se as roupas, os gostos, as escolhas e os sentimentos estão ou não agradando.

O Boff é o único produto capaz de fazer com que uma pessoa seja ela mesma independente da situação. E o melhor de tudo: permite a felicidade!Não precisa de manual, é bem fácil mexer... basta apertar o botão e curtir cada momento. Eu já testei e realmente funciona. Adquira já o seu!

(Dalila Lemos)

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

CONTO COR DE ROSA

Na sala de aula, foi ordenado que cada um da turma escrevesse um conto com final feliz. As histórias poderiam ter personagens clichês como madrastas, sapos, fada madrinha, monstros, entre outros seres obtusos. Materiais de apoio estariam disponíveis para a consulta, a fim de amparar o processo de criação.

Atentamente, a professora observava seus alunos concentrando-se na leitura de livros infantis com histórias inspiradas em narrativas da Walt Disney. Enquanto se submetia a uma análise individual, percebeu que uma de suas alunas não fazia o mesmo que o restante da classe: Laura folheava cuidadosamente uma revista feminina, fixando seu olhar nas páginas onde sexólogas e psicólogas respondiam perguntas de diversas leitoras.

Estranhando os fatos, a professora sentou-se ao lado da menina e a questionou sobre seu comportamento, dizendo não entender o motivo de uma revista servir como base para a criação do conto solicitado. Obteve a resposta de que a idéia principal era a de escrever uma história inteligente e adequada ao mundo atual.

Passaram-se duas horas e o prazo para a entrega dos textos havia esgotado. Enquanto um dilúvio clareava o céu da cidade, os alunos liam seus contos aleatoriamente. No de Bruno, a menina pobre beijou um sapo que se transformou num lindo príncipe. Já no de Clarice, a fada madrinha havia transformado a madrasta em uma empregada para que ela nunca mais incomodasse a princesa.

E logo chegou a vez de Laura. Na sua história, a madrasta mantinha o pai da princesa ocupado todas as noites. Com o pai ocupado, ela saía para tomar uma cervejinha com a fada madrinha. Tomando uma cervejinha, a fada madrinha transformava o lindo e romântico príncipe em uma rã. Transformado em uma rã (e não num sapo) o príncipe serviria como um delicioso tira-gosto. A princesa então iria embora bêbada, chegaria em casa cruzando as pernas, o empregado sarado cuidaria dela, eles passariam a noite juntos e, depois, a fada madrinha o transformaria num indispensável comprimido de engov. No dia seguinte a princesa acordaria super bem e gritaria: VIVA O SÉCULO XXI!

(Dalila Lemos)

O TRUQUE

Abriu a caixa. Tirou tudo de dentro. Fechou a caixa. Colocou tudo sobre a mesa. Ela estava mesmo disposta a fazer isso novamente! O telefone tocou durante cinco minutos sem que Laura Borges, sequer, ouvisse. Só uma coisa tomava conta do seu pensameto: o truque.Qualquer palavra que falasse, qualquer passo em falso que desse seria o fim.

Os riscos deveriam estar de acordo com as estratégias. Nenhum atraso da pessoa que esperava. A campainha tocou, o médico chegara. Laura o convidou para sentar-se na mesa e acendeu seu primeiro cigarro. Durante um trago e outro ela escutava um barulho: era o telefone, insistia em tocar. Apagou o cigarro no cinzeiro e começou a mexer nos objetos que havia tirado da caixa. O médico fazia o mesmo, porém com bastante habilidade. Não havia dúvidas, ele era eficaz, inteligente, rápido.

Os planos de Laura começaram a dar errado, acendeu outro cigarro e tragou com desespero. Estava prestes a ser derrotada, precisava fugir disso, não havia ninguém que ajudasse.O telefone tocou mais uma vez. Quebrou a segunda regra e atendeu. Um simples suspiro fez com que ela soubesse de quem era a ligação. Acendeu outro cigarro, andou de um lado para o outro, mas não desligou. Precisava fazer e tinha que ser agora.

Devagar e em baixo tom as palavras foram saindo de sua boca. Laura suava, não se continha, as frases começaram a se embaralhar e a voz tornara-se trêmida. Finalmente falou: "Bárbara, Bárbara! Se soubesse o quanto me influenciou... Falava em truques como quem fala do ar que respira. Truques, estratégias, macetes. Coisas que fazem de você uma vencedora. Mas eu... Eu não quero mais deixar de ser quem sou por causa de uma disputa mesquinha. Não quero mais agüentar noites em claro, maços e garrafas vazios. Não quero mais jogar!"

Quebrou a terceira regra e desligou o telefone. O médico, a essa altura, já estava em pé ao lado da mesa e olhava distorcido para os cantos da casa. Laura não falou uma palavra, abriu a caixa, guardou o tabuleiro, as fichas, os pinos e o dado. Olhou pra ele com a expressão confusa de quem queria ficar só. Ele se foi.
Na hora de dormir ela pensava sobre lance de dados, fichas sendo entregues, pinos avançando sobre o tabuleiro. Ninguém ganharia nunca!!! Foi melhor assim. Não havia mais jogo. E o truque era esse.

FUTURO DO PRETÉRITO

O mesmo quarto. A mesma parede terracota. São duas e meia da manhã. Às vezes me pergunto há quanto tempo penso nas mesmas coisas enquanto ando pelas ruas. O caminho muda: os carros, as casas, as caras... meus pensamentos não!

Eu continuo imaginando a vida. E recomendaria um mundo mais leve, ingênuo, mais colorido. Um mundo distinto pra todos! Se possível, ainda espalharia overdoses de energia positiva, alastraria sorrisos, divulgaria a crença.

Por mim, as pessoas acreditariam menos nos outros e mais nelas mesmas, tomariam mais banhos de chuva, ouviriam mais músicas, sonhariam mais. Viver seria um excesso de coisas boas! Eu destruiria as armas e preservaria a natureza. Rasgaria o dinheiro e beberia mais água. Extinguiria a saudade. Aproximaria a distância...

Nesse futuro do pretérito, os meus delírios de ontem seriam meus desejos de amanhã. Eu escolheria ser a mesma pessoa quantas vezes fossem necessárias, simplesmente porque o gosto de viver sem saber pra onde (ou pra que) me dá água na boca. Unicamente porque sou diferente e a diferença me faz acreditar que posso pensar o que quiser.

Por fim, eu olharia para o relógio mais algumas vezes. Como um derradeiro que me fizesse entender por que o telefone toca e vocês não atendem, por que alguém grita e vocês não ouvem, por que o fim se aproxima e vocês não se movem.

Em papel passado? O mesmo nexo. Conversas. A mesma ilusão.

(Dalila Lemos)

O ANO COMEÇA NO CARNAVAL

Laura acordou ainda com muito sono, devido ao tenso dia anterior. Tomou um banho quente e demorado. Trocou de roupa três vezes seguida. Engoliu o suco que haviam preparado e partiu rumo ao trabalho.
Chegando no ponto de ônibus um anseio tomou conta de si. Ela queria apenas um lugar para sentar e tentou entrar primeiro que todos os passageiros. Mesmo conseguindo, foi inevitável viajar por uma hora encostando-se a outras pessoas que também estavam em pé.

Por um momento pensou absurdos que lhe rechearam de exaltação. Era uma incoerência enxergar policias e militares sentados em lugares que poderiam deixar as grávidas ou os idosos mais confortáveis. Esse tipo de gente entra pela porta da frente do ônibus, nunca sente o bolso doer com o aumento das passagens e, ainda por cima, consegue atrair atenção de mulheres insanas que não podem ver um fuzil ou uma estampa camuflada.

Guardou sua raiva para as próximas vinte quatro horas, pois não havia dúvida que teria um outro dia sobrecarregado de repetições. Seus amigos falariam a mesma coisa, os convites seriam os mesmos, seus olhos pesariam após o almoço e a chuva da tarde desbotaria a tinta de seu cabelo.

Ouvindo uma de suas preferidas e barulhentas músicas, debruçou-se sobre a roleta e fechou os olhos tentando entender como uma data festiva muda a visão geral do mundo. No carnaval, ninguém se importa de viajar em pé no ônibus tampouco dividir um espaço de 5 m² com mais dez pessoas. Há sempre risadas para os mesmos assuntos. Os convites podem ser iguais que são aceitos infinitas vezes e, até mesmo os uniformes, chegam a ser esquecidos por quem os veste.

Não há briga que faça uma boa letra de samba. Não existe bebida incapaz de aproximar quem não se conhece. O carnaval faz alguém ser dono de si próprio, ainda que essa pessoa queira ser de mais alguém... ou apenas de alguém. E no fim do dia, qualquer segundo vira lembrança.
Uma música mais calma começou a tocar e Laura desceu do ônibus. Chegou ao trabalho com um sorriso tranqüilo no rosto e deu bom dia a todos. Não havia mais raiva nem tensão: faltava apenas um dia para o começo do ano e para o fim de pensamentos pessimistas.

(Dalila Lemos)


JUSTIÇA? MOSTRA SUA CARA

Teoricamente, justiça significa princípio moral que exige conduta justa, com respeito ao direito e à equidade. Na prática, a situação pode se desviar a ângulos assustadores e fazer com que o mundo se perturbe em busca de um novo significado. Não é necessário expor mais de um acontecimento para falar em retidão, visto que a gravidade do ocorrido já cala o que deveria ser justo sem o mínimo esforço.

Atualmente foi publicada uma nota informando que o assaltante Ezequiel Toledo de Lima, após cumprir pena socioeducativa, ganhou liberdade e moradia no exterior. Só para constar, é importante ressaltar que o personagem principal dessa notícia ficou mundialmente conhecido por participar do crime que resultou na morte atroz do menino João Hélio Fernandes, de 6 anos, preso pelo cinto de segurança do carro e arrastado por sete quilômetros na Zona Norte do Rio.

Não bastasse a liberdade, Ezequiel conseguiu por meio de uma organização não-governamental embarcar com a família para um dos países mais desenvolvidos do mundo, com casa e identidade novas para reiniciar sua vida, tendo em vista as ameaças sofridas até mesmo no Instituto João Luiz Alves, na Ilha do Governador.

A polícia prendeu mais quatro assassinos. Diego Nascimento da Silva foi condenado a 44 anos de prisão. Carlos Eduardo Toledo Lima recebeu pena de 45 anos. Os demais, Tiago Abreu de Matos e Carlos Roberto da Silva tiveram reclusão de 39 anos cada um. Apenas Ezequiel, que na época do crime era menor de idade, pôde transformar seu erro em algo que muitos chamam de “sonho”.

Enquanto situações tensas como essa recheiam o país, viram capas de mídia impressas e se candidatam ao sensacionalismo, uma mãe sente a dor da indiferença sem poder ao menos recomeçar sua vida, pois o laço familiar foi desestruturado devido ao comportamento inútil de quem nunca ouviu falar em empatia, tampouco descobriu o gosto de se viver bem.

No momento em que o menino João Hélio era arrastado pelo carro, pedestres avisaram os bandidos e ouviram um deles falar “isso não é uma criança, é um boneco de Judas”. Claramente, Judas fazia um papel diferente... era um menino de seis anos, inocente, que perdeu sua vida tentando cantar para o mundo: “Brasil, mostra sua cara, quero ver quem paga pra gente ficar assim. Brasil, qual é o teu negócio? O nome do teu sócio? Confia em mim”.

Se para você isso é justiça, para mim é pura coincidência.

(Dalila Lemos)

domingo, 18 de outubro de 2009

P&B

Um cachorro sabe de muita coisa: sabe o que você quer, o que você sente, do que você gosta. e às vezes, até mesmo sem saber o motivo, ele te espera porque gosta da sua presença, porque pra ele você é única e faz a diferença.

Um cachorro brinca na hora que você quer e se contenta com os momentos inoportunos porque entende sua vontade. Ele fica ao seu lado na hora que você precisa e se afasta na hora que você pede.

Um cachorro entende que seu dia foi longo, que seu trabalho foi estressante, seus amores te machucaram e seus estudos têm sido difíceis de conciliar.ele te espera para passear, mas não liga se você quiser ficar em casa assistindo aos programas de tv mais fúteis já inventados até hoje.

Um cachorro perdoa seus erros. Lambe sua cara. Olha para você como se entendesse o significado de suas palavras. Comemora os momentos mais importantes. Lamenta os momentos mais frágeis e sempre está pronto para um novo dia porque, para ele, o tempo só existe ao seu lado.

Quantas pessoas fazem isso por você?

***Saudades imensuráveis do cachorro mais preto e branco, mais humano e mais sacana que já conheci. Meu amigo, meu irmão e minhas melhores marcas de mordida***

(Dalila Lemos)

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

DICIONÁRIO

Durante o almoço surge uma frase: “o que fulano fez foi sacanagem!”. Meu avô interrompe a conversa, dizendo que essa palavra tem um significado horrendo. Encapelado, ele diz logo em seguida:

- Você sabe o que está dizendo? Sacanagem se resume a um filho que trepa com a mãe. É um palavrão aterrorizante!

Fiquei abestalhada e me senti na obrigação de contestar:

- Nossa, vô! Você, uma pessoa de costumes tão antigos, falando “trepar”!?!

E ele lá, há uns cinco minutos, tentando me persuadir com sua opinião. Quase sem paciência, pronunciei (sem certeza nenhuma) que a palavra sacanagem possui vários significados. Abracei uma das decisões mais sérias de toda minha vida:

- Preciso só de um minuto para pegar o dicionário.

Sem sombra de dúvida, procurei os significados longe dele. Se estivesse errada quanto à inocência do que eu quis dizer no início da conversa, posteriormente, daria um jeito de enrolar o velhinho só pra não pagar o prejuízo. Mas tudo ocorreu conforme eu já imaginava:

- Pronto. Vim esclarecer nossa dúvida! Aquela palavrinha mágica possui três significados diferentes: 1. Ação, dito ou procedimento de sacana. 2. Bandalheira, imoralidade, safadeza, patifaria. 3. Brincadeira de mau gosto, troça. O terceiro significado é o que se encaixa melhor na minha frase.

Logo após, meu avô balbuciou algumas letras perdidas e contentou-se com o meu argumento. Algo que antes me incomodava, agora já não me incomoda mais. Posso falar “sacanagem” quantas vezes eu quiser. Vejam bem:

- Sacanagem! Sacanagem! Sacanagem!

Se ele resmungar ou esquecer de tudo, eu pego o dicionário e resolvo a confusão em um minuto.
Esse texto podia acabar assim se não houvesse a enorme necessidade de apresentar outras palavras e seus supostos significados.

“Horrendo” significa o mesmo que “aterrorizante”. Você pode substituir “encapelado” por “furioso” e entender que meu avô ficou realmente fora de si. Sentir-me “abestalhada” é tão ruim quanto ficar “abobada”, pois essas duas uniões de letras me lembram apelidos escondidos na infância. “Patifaria” até que soa agradável, mas é nada mais nem menos que “pouca-vergonha”.

Enfim. Graças a deus meu coração tem dono, pois se o Rodrigo Hilbert aparecesse na minha frente, eu não precisaria de dicionário pra entender o significado número dois da palavrinha mágica. E já que estamos falando em dois... o pensamento seria pequeno se não coubesse o Rodrigo Santoro nessa imoralidade toda. Aí sim, surgiria um novo assunto: “êxtase” (ou “fascínio”, segundo os sinônimos do Microsoft Word).

Quer saber de uma coisa? Eu acho esse lance de dar nome às coisas e coisas aos nomes uma verdadeira SACANAGEM!

(Dalila Lemos)