terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Azul

De repente reparo que há vida lá fora. Milhares delas, eu diria. Às vezes penso que sei lá. Eu penso demais. Mas não sei até que ponto essas vidas estão sendo vividas, sabe? Eu não sei.

É um tal de despertador matando a gente. Uns sonos que existem, mas não deixam dormir. É barulho de carro no asfalto e a gente aqui: a pé. É o fim do ano se aproximando sem ninguém entender onde ficou o começo. Tudo muito rápido...

Frases pela metade. Sentimentos no meio do caminho. Um tal de tempo que não volta e outro que não chega. E eu, pintando minha loucura de azul.


CAOS


















Um pouco. No meio do nada
De um tempo aquele em que não éramos descomedidos.
Não éramos laços
Nem pontes, abismos
Simplesmente não éramos!

Em tudo que ficou no vazio
No meio do caos
No meio da lama
Na infinita espera dos dias que não vêm

Em livros velhos com páginas rasgadas
Espalhando ecos das palavras perdidas 
Na ausência dos móveis
Na ausência tua
Nos meus fantasmas
E em cada passo confuso

É no meio de mim, sem rimas, 
Que ficou uma parte
É no meio de ti, contudo
Que ficou o resto.

(Dalila Lemos)

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

NO ESCURO

A lâmpada queimou. E no escuro eu comecei a pensar no exagero de me resumir às roupas espalhadas pelo colchão. Estava tarde. Eu podia sentir o frescor do vento, talvez três ou quatro horas da madrugada, e uma melodia rude, lenta, martelando no tímpano. Eu precisava sair dali. Mas eu não queria, e logo ficaria claro, a luz da manhã traria uma falsa sensação de conforto e teria o barulho dos carros, dos pássaros, quem sabe de algumas crianças lutando contra a responsabilidade de ir à escola para se tornar sei lá o quê. A gente nunca sabe - nem do outro, nem da gente.

Eu não fazia ideia de nada, nem de quantas horas passavam enquanto eu pensava nisso tudo, por tantas vezes repetidas em toda minha vida. Não sabia do tempo. Abri uma garrafa de vinho, segurei a taça em frente ao espelho, sem me reconhecer no entanto. Vi o reflexo de alguém que já não habitava o meu corpo. A pele pálida, maquiagem borrada e o rosto inchado, revelando um estado de autocrítica imensurável por todos os sinais ignorados no mundo. Quantos segundos? Pensei. Talvez o suficiente pra cobrir o vazio com alguns panos que ficaram pra trás, sem pausa, no meio do caminho.

Havia muito espaço entre uma coisa e outra que se transformava dentro de mim. Tantos discos e filmes e roupas e cenas. Tanta gente! E grito e eco e os nós desatados com o movimento dos ponteiros. Eu sentia medo a cada gole, mas já não conseguia voltar atrás. Não me lembrava o modo. Não me identificava entre os traços embaçados, tragos de cigarro, os lábios roxos e o estômago embrulhado de lembranças. E aquele som, hostil, fazendo cada vez mais barulho, enaltecendo a manhã que se aproximava não de mim, mas de tudo que havia em mim.

No momento em que senti a garganta seca, mesmo já na quarta taça, comecei a ter uma vaga ideia do que ficou incompleto. E era muito. Podia rasgar lírios nos meus textos, papéis velhos, aquilo tudo que eu me esquecia o nome e que transbordava. O celular tocava e eu deixava. Batiam a minha porta e eu deixava. Eu deixava os verbos sem conjugação, deixava ir, me deixava aos poucos. Eu era menos do que podia ser, mas estava além de onde podia estar. Talvez sentisse apenas sono, mas era preciso estratégia: um grande esforço para comprimir as pupilas, desacelerar os batimentos e perder as contas de quantas vezes foi necessário fazer de conta, porque a realidade dói. E foi então que tudo ficou claro. Ainda que com o sol ultrapassando a cortina, me cegando, fazendo com que eu implorasse por mais um pouco - Só mais um pouco! Adormecer não bastava para os sonhos que eu construía com os olhos entreabertos.

(Dalila Lemos)

sexta-feira, 27 de julho de 2018

ALÉM DO VENTO

Foi pipa no céu. O movimento leve das coisas que o vento ergue, que o vento leva. A gente nem sempre compreende quando não se basta: derrama o abecedário e observa, estático, a imensidão do universo. 

A princípio assusta porque não cabe tudo que não foi possível fazer. As três folhas da prova de matemática, uma cidade, a Aurora Boreal, 21 km. Não dá para conter as noites mal dormidas de quando o tempo escapou pelos dedos sem aviso prévio ou daquilo que era muito e se despediu.

É normal não entender. Nem Noturno de Chopin exclamando reticências nem a desconexão do quanto pesa quando você não deve, mas quer.

A vida tem disso em cada lacuna. Tem um espaço. Um amigo que foi embora, um capítulo não lido, um nó na garganta de outros nós que se desfizeram no meia da rua. Somos vulneráveis pra transcender limites!

Olhando pra cima dá pra perceber que o que machuca nem sempre é um tanto; às vezes é uma gota, que cai delicadamente nas costas. Às vezes é a dor do outro ou o tédio de limpar o tapete por obrigação porque aprendemos a ser adultos. E entre tudo isso, tem muito de todo mundo. Em cada um tem um sorriso que marca, uma flor no jardim, um momento que deveria continuar ali.

Se a pipa não cai, é física. Todo restante é a gente.

(Dalila Lemos)



segunda-feira, 16 de julho de 2018

EPÍLOGO

A uma dúzia de palavrões ele se resumia. Saliva ardendo cada dose de cachaça e, mesmo que ébrio ou sóbrio ou coisa nenhuma, para si justificava: instinto, que perdura.

Já passava das três. E quando chega qualquer hora, não há instante para o domínio. Tem um quê de muro de concreto, corpo, carne, imensidão do desejo. E as vadias! As malditas vadias!

Dava pra ver poeira nos livros. Eles não significavam nada, absolutamente nada sob a luz tênue no balcão. O que importava era o cheiro por debaixo do vestido, a língua trincando entre os dentes, mais uma dose, o impulso. E a coisa ia de tal forma, que só sobrava sinal de silêncio. As palavras misturavam-se ao pó, caladas à força no epílogo.

A recusa se perdia porque negando eram putas, e aceitando eram também. Do constrangimento à excitação: verdadeiras putinhas, quase imprestáveis não fosse uma ou outra pretensão. Vadiazinhas de merda, frustradas, visionárias; consumidas pela ânsia de um lençol amarrotado, um chão gélido, uma parede suja e um resto qualquer de solidão.

Mas a conta sempre fechava com conivência à nostalgia. Havia incessantemente uma rua qualquer, um pássaro qualquer, um banco de praça qualquer e um qualquer de qualquer jeito que trazia melancolia. Às vezes o café, a leveza de uma conversa, a delicadeza do cuidado. Às vezes o próprio teto, uma melodia, o calor do abraço, o sol refletindo saudade. Ah, como seriam putas as tuas putas se ao menos putas fossem!

(Dalila Lemos)

quarta-feira, 11 de julho de 2018

FUGA

Eu olhei as nuvens refletindo na poça d'água que se formou no desgaste do asfalto. Pensei sobre a vida e sobre o que estou fazendo dela, com esse coração que fica onde acha o lado bom em um canto. Eu, que sempre enfrentei tudo, me vi em desespero.

E ainda que sorrindo - em total desespero - entre crises e fantasmas e barulho de chuva e um tanto de frio e um pouco de mim embaçado, supliquei.

Eu que já enfrentei a distância, os codinomes, as falhas, as consequências. Eu que desafiei os deuses, encarei o tombo, superei o abuso, confrontei as aparências, fitei o perigo. Eu, que me desacelero quando as nuvens passeiam do céu ao chão, só imploro que, ao menos uma vez, tenha o direito da fuga.

(Dalila Lemos)

sexta-feira, 6 de julho de 2018

190 NÃO É

Remédio. Gadernal. Telefone, ligação, ambulância. Qual o número??? Calma! Que tal tentar um calmante... Mas... Alguém pode me explicar o que está acontecendo?

O velho enlouqueceu, dizia Soraia. Como assim enlouqueceu? Perguntava César. Com um ar de superioridade, a outra respondia: ora, meu caro, enlouquece quando atinge a extravagância da aventura insensata e recorre à alienação mental.

Já passara da hora de alguém ser mais claro. A outra tinha visto o começo e acabou expondo a situação como uma tragédia. Parecia dar conta dos vultos, das sombras na parede, daquele maldito cimento que ninguém entendia como tinha aparecido na história. Acabou nos levando a uma sala, tão abafada e que só aumentava nosso desespero.

Um dedo apontou. Lá estava o velho! Numa cadeira de madeira lixada, amarrado com uma corda grossa e os pés afundados numa bacia de cimento. O certo seria ter uma cobaia por perto, porque, na verdade, ele não se tornaria escravo e prisioneiro de si. Mas não havia ninguém .

Tá bom, a psicologia precisava entrar em ação imediatamente. Fácil é entender que os velhos regridem, mas como explicar a insanidade?!? Dizia ele que não estava louco: era amor. Amor mortal! Sentia-se como se a vida não expandisse pra nada, pra nenhum lugar, e ele não passasse de alguém testando seus limites além do estado de estar parado. Não havia mais sorrisos, não ouvia mais canções, não falava mais bobagens. O velho estava preso a alguém que não voltará jamais.

Mal passaram aqueles dois dias e teve mais um enterro. Aquela choradeira que só vendo! Os nervos a explodirem!

Remédio? Gadernal? Telefone? Ligação? Qual o número da ambulância? Poderiam tentar um calmante... Mas... Acho melhor um novo coração.

(Dalila Lemos)

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

TRAVESSIA

Não foi em dias de sol que eu me tornei o que sou hoje. Foi na dor. Foi enquanto eu observava a chuva e pensava nos meus passos, molhados, caminhando em busca de algo maior. Às vezes, quase impossibilitada de seguir em frente, eu parava. Me escondia. Me protegia da tempestade. Depois eu acreditava que uma hora isso tudo ia passar. E passava. Eu via tudo passando por mim.

Passavam ressentimentos. Filmes na minha cabeça, com enredos que eu não desejei que terminassem (e terminaram). Passavam cenas que eu nunca imaginei que viveria (e vivi). Músicas que já me angustiaram, palavras que eu não decifrava... Passava o trânsito, o caos, o risco, o tempo - tal inconstante qual o medo.

Tudo que sou é travessia. Eu deixo amor por entre coisas que passam. E eu deixo amor por onde me atravessam.


(DALILA LEMOS)

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

NADA É NÃO

A energia que você espalha é a mesma que você recebe". Seria cômico se não fosse o fato de que estou espalhando muita energia louca por aí. E tenho atraído os seres mais insanos da crosta terrestre: de humanos a pernilongos - todos, sem exceção, completamente fora da casinha!

Meu tempo é feito de momentos que tinham tudo pra dar certo, não fosse uma interferência externa na frequência da paz interior. Algo como entrar num ônibus, exausta, e conviver com o bêbado bipolar. Ora esperneia canções de amor, ora se diz autoridade e cospe ameaças alcoólicas pela janela.

Eu só queria dizer que não. Mesmo que eu diga absolutamente nada, quero dizer que nada é não. É um não querer ser incomodada na necessidade do descanso. É um não querer saber relatos pessoais dos que escandalizam conversas ao celular. É um não querer nada, entende? Porque nada é não. E meu não é ponto. Eu hein!!! Às vezes quero me despir dessa loucura que é a vida, mesmo sendo a minha melhor vestimenta. Não quero ser convertida pelos fanáticos religiosos, tampouco comprar palavra cruzada na porta das Lojas Americanas. 

Não tenho interesse algum em trocar meu plano de celular, muito menos aprovar crédito especial no banco (de especial já basta meu roteiro de existência). Se nada é não, significa que não quero 3 por 10 quando só preciso de 01. Às vezes, 01 minuto de dispersão ou, quem sabe, 01 minuto da minha melhor melhor dose de endorfina. E quando não quero nada, nem o rumo me escapa: sento na beira da calçada, entre os insetos da estação, e encho meu cérebro de vazio. Então a loucura me leva.

(DALILA LEMOS)

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

DESCULPE O TRANSTORNO, MAS PRECISO FALAR DE EXU



Não lembro onde o conheci. Essa frase pode soar preocupante se você imaginar a imensidão do quanto estou me lixando pra isso. Ele usava touca preta, bermuda e tinha um piercing no queixo. O restante da minha falta de memória é um motivo deveras justo para que qualquer pessoa confie em mim: não haverá fofoca, pois não me lembrarei.

Os olhos, sempre arregalados e em tons diferentes de verde, deixavam claro que os amigos dele conseguiam reparar detalhes que eu mal cogitava. Mas eram de passarinho - isso eu sabia bem. E não pense que o Gregório é o diferentão da paixão à primeira vista... Eu também passei por isso (e confesso: acho que foi macumba).

Começamos a re-namorar no dia 27 de Novembro. Ele pensou que fosse dia 20. Conclusão: ta tudo bem na fila de espera do Alzheimer.

Não vimos todas as séries. Longe disso: eu dormi e continuarei dormindo no meio delas. Inclusive, durante as minhas favoritas. E várias vezes. Não me encham o saco. Obrigada, de nada.

Não fizemos receitas de risoto. Fizemos farofa. E a dele é a melhor que eu já experimentei.

Não queimamos nenhuma panela de comida porque meu teflon das Lojas Brasil é coisa linda de se usar. Não escolhemos móveis sem saber se eles passariam na porta, mas, em compensação, tomamos incontáveis cervejas sem saber se caberiam no estômago.

Não fizemos uma dúzia de amigos novos porque nossos amigos são antigos e cheios de mania. Melhor não arriscar! Também nunca fizemos curta - a sociedade não está preparada para o nosso deboche.

Sofremos com os bares fechados, rimos com litrão a sete reais. Não viajamos o mundo, mas descobrimos o significado de "Uhulll" sem sair de casa. Das dez músicas que mais gosto, sete ele se nega a acreditar (e isso inclui "Não Ter", da Sandy e do Júnior). As outras três talvez ele tenha me mostrado, mas eu também não me lembro.

Aprendi o que era feminismo na marra, e não foi com ele. Agradeço! Cisgênero, gaslighting, heteronormativade e mansplaining também. Em contrapartida, graças a ele eu nunca esqueci que a capital de Alagoas é Manaus. Não, péra! Ai meu Deus.

Uma vez terminamos. E não foi fácil. Parecia que pra sempre ele ia fazer falta. Eu estava certa! Se a gente ao menos tivesse tido um filho, pensava, o encosto seria eu.

Essa semana vi a gripe dele passando pra mim - não por acaso uma história de azar. Achei que ia espirrar tudo de novo! E o que me deu foi uma felicidade profunda de poder dividir esses perdigotos. Sabe como é né, eu sou Dalila. Clarices devem ser mais elegantes.

segunda-feira, 14 de março de 2016















Poucas vezes fico muda
E tudo porque - quase nunca -
Nunca grito meu silêncio
Poucas vezes vejo o céu fragmentado
A lua cheia
O apito de um trem quase confuso
Não vejo vênus nem júpiter
Não finjo verdades nem sonhos já cansados
Não tenho nas mãos nada mais que a opção de calar-me a boca
Eu fico muda.
E tudo porque - quase nunca -
Nunca calo meu desespero

Tenho um nó
(Não na garganta)
Mas na alma vazia que me preenche de medo
E sobre esse mundo farto
Sobre teorias bem elaboradas
Tenho apenas respostas
Muito mal convincentes a mim mesma

Sem ponto
Sem verbo.
Sem espaço.
Até sem nome eu fico!
Mas fico.
Ainda que em silêncio
Ainda que em pedaços
Ainda que sem palavra.
Digo, sem ponte ou abismo
Quem sabe o lirismo
E o delírio que me propaga no vento

Fico porque sou eu, imóvel
Perdida na euforia do tempo:
Que não grita, mas ensurdece
Que não fala, mas se faz compreensível
O mesmo tempo
Que, para a alegria dos ponteiros,
Traz (re)encantos dos encantos
Que foram contados na ponta dos dedos

Um alguém mudo.
Talvez eu.
Talvez você.
Talvez só esse tempo.

(DALILA LEMOS)

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

UM PONTO VAZIO

Portanto, fico assim. Porque talvez fosse setembro... Eu não me lembro. E sem querer rimar, exponho alegremente que aprendi a esquecer (pelo menos as datas de) as coisas ruins.

Mas foi um dia traumático de fato. Um trauma não registrado no calendário. Um medo indefinível, não por ter ficado sem celular, mas por ter ouvido pessoas perguntarem se o assaltante era negro. Que diferença faz a cor num mundo que reflete ignorância em tons de cinza?

Tive medo de ficar cara a cara com o despreparo da polícia. Medo de fazer mal a alguém que, por qualquer motivo, necessitou tirar algo material de outro alguém. E um medo de ouvir vozes dizendo que sou louca por me preocupar tanto com quem "não se esforça pra vencer na vida".

Entre tantos medos, o pior foi o de me sentir desprotegida. Mas naquele dia de setembro sem rimas, ou de outubro que não muda nada, percebi o quão é inevitável.

Não falo de segurança no seu sentido literal. O buraco é mais embaixo! Eu me sinto desprotegida a todo instante: no convívio com pessoas que tentam passar por cima das outras, nas entrelinhas dos discursos de quem defende o combate à violência com violência, no lucro egoísta dos grandes empreendedores, no sentimento surreal de quem despreza o valor dos sentimentos, na falta de paz que tenho ao chegar em casa, nas reticências de exemplos e na sensação de impotência que um motorista pode me causar quando dou sinal e vejo que o ônibus não parou devido ao fato de eu estar correndo.

O buraco é mais embaixo: bem embaixo do meu nariz! Hoje eu tentei salvar uma barata e chorei por ter falhado. Agora meus pensamentos estão desconexos e eu não sei como devo ficar: parada num ponto vazio ou no movimento de uma realidade hostil.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

CARTA DE APELO

Querido Papai Noel,


Sou uma jovem ranheta de 27 anos. Tenho convicção de que escrever para o senhor já é algo ultrapassado (afinal, deixei se der criança muito antes de a Sandy seguir carreira solo e a Joelma descobrir que quem trai não é a lua). Mas, em contrapartida, tenho consciência de que eu não deveria me foder tanto enquanto ser humano.

O Natal se aproxima: uma época de renovação, em que devemos lançar um novo olhar para a realidade. E é justamente por isso, querido velhinho, que te deixo a par das minhas sinceras elocuções. Peço que analise, carinhosamente, minha real retrospectiva de 2015:




- Dei PT na Pista Premium Verde do show dos Foo Fighters.
- Fui homenageada por uma taxista do Uruguai (eu disse Uruguai) cantando “Vai buscar Dalila”. 
- Pintei o cabelo de loiro escuro e fiquei com as madeixas iguais a da Mortiça Adams.
- Rasguei meu tênis, tomei chuva e passei frio no Lollapalooza.
- Minha pronúncia em inglês, referente a um modelo de notebook, foi corrigida de forma errônea.
- Levei uma mordida na lateral da perna direita e me dirigi ao hospital para tomar antitetânica.
- Fui assaltada no ponto de ônibus quando faltava apenas três minutos para ir embora.
- Tomei benzetacil na nádega devido a uma infecção na garganta.
- Lutei bravamente contra a gracioca doença do carrapato que minha cachorra adquiriu.
- Decidi voltar para a coloração acobreada e saí do salão fazendo tributo ao Gugu Liberato.
- Presenciei lixeiros se menifastando com a versão em português de “Who Let the dogs out”.
- Identifiquei uma stalkeada cômica no meu instagram.
- Me entupi de antibióticos lastimosos e tive longas noites de insônia. 
- Fiquei presa na Dutra e segurei o xixi por, aproximadamente, duas horas.

Ressalto que estou disposta a citar mais exemplos, caso haja necessidade. No mais, espero ser compreendida e anseio por um agrado que recompense tamanha desventura.

Nos vemos em Dezembro.

Atenciosamente,

Mick Jagger

quinta-feira, 12 de março de 2015

GUARDA-CHUVA AINDA TEM HÍFEN E SERVE PRA SE MOLHAR

Quase uma hora dentro do ônibus, digerindo a capa da globo.com desde ontem. Pensei em tanta coisa, que me senti 'um estranho no ninho'. E olha que o meu cérebro costuma me contrariar, sem funcionar direito antes das dez da matina. Mas hoje não.

A mente sacudiu junto com as rodas sobre o paralelepípedo do bairro Paraíso e cheguei ao fim de um processo que e pude denonimar viagem. Viagem - nas suas amplas traduções.

Chegou a hora de passar pela roleta, guardar os óculos escuros e seguir em direção à academia. Mas eu não consegui concluir esse ciclo da forma que faço casualmente. Alguma coisa me fez encostar sobre o ponto de ônibus e pressionar o modo aleatório do MP3 até que algum som pudesse satisfazer minha audição.

(Eu estava em modo off).

Me distraí do celular e avistei um desconhecido com dificuldades de se equilibrar sobre as quatro patas. Magro. Sem nome. Sem dono. Sem espaço.

O Medo - que era dele - passou POR mim. O medo - que era meu - passou PRA ele. Um receio cheio de intensidade, lotado de ansiedade e que tem se transformado numa luta de Kill Bill dentro de mim. Mate o Bill e encontre a esperança, como se encontra uma agulha no palheiro (foi a razão quem disse).

Mas eu pude ver a pressa dos ponteiros e o tempo corroendo aquelas costelas em um fight contra meu atraso. Foda-se a rotina!

Rodei Resende por 1/3 de hora até conciliar a pausa do cachorro com algum estabelecimento que vendesse comida. Depois fiz isso novamente... E la se foram mais dez minutos!

(Modo on. The Mars Volta perfurando os tímpanos).

Cheguei na academia e nenhum relógio me deu a oportunidade de ir para a esteira. Adeus aeróbico! Senti a pressão da correria e a total falta de vontade de encontrar o valor de X na equação estética.

Puder perceber o incômodo que invadia algumas coleguinhas enquanto eu usava o intervalo dos meu treino para escrever esse texto. Sabe-se la o porquê, mas existe gente que tem necessidade de corpo... De selfies que registram curvas em macacões justos... De um instagram para os mamilos e um tumblr para o fio de dental.

Ah sim! Me lembrei que somos indivíduos (lotados de particularidades) antes que essa percepção se transformasse em qualquer, diga-se, 'pré conceito' - o que não seria nada legal! Mas é que tenho um lado meio Vinicius de Moraes: "meu tempo é quando"... E, com os vinte diminutos que me restaram, só consegui pensar em banho. Sempre odiei cogitar a possibilidade de ficar fedida!

Talvez um dia eu apresente minhas particularidades e explique a necessidade que tenho de sentir paz no coração. Hoje, se alguém entender que guarda-chuva ainda tem hífen e serve pra se molhar, ja está de bom tamanho.

(Dalila Lemos)

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

UM POUCO DE VERDADE

O cigarro queimando. Alguns carros na rua. Foi tudo que eu pude escutar!

De repente, o mundo ficou em silêncio. Não sei em que proporção: nos passos brandos, na porta do bar, no vento que sopra leve às noites quentes.

Meu mundo: Quieto. Excessivo de falta. Num silêncio sem igual.

Apoveitei-me muda. Sentei-me no meio fio. Abaixei a cabeça e comecei a ter sentimentos que, há muito, não me pertenciam.

Eu deixei invisíveis aquelas coisas sem nome que costumam fazer barulho. O medo, a raiva, as suposições, a utopia e o raio que os parta! Sufoquei-as dentro de mim, enquanto apoiava a cabeça em uma de minhas mãos. Depois fechei os olhos e silenciei o movimento do ponteiro dos relógios.

Talvez tivessem passado cinco minutos; e não nove meses, como meu raciocínio se fadava a acreditar. Mas eu tive lembranças... Lotadas de ranger de porta, fechando e abrindo. Trancando. Deixando ficar.

E, de fato, ficou: um pouco de vinho tinto no fundo da taça, um pouco de música, um pouco de asfalto visto pela janela.

... Ficou um tanto quanto de mim num tanto quanto de outrem (que ficou na gaveta).

... Ficou o sorriso capturado pela transparência do vidro, um pouco de luz acesa e a coberta com cheiro de madrugada.

... Algumas marcas na parede; outras, na alma.

... O suor que se esparrama pelo cabelo, a tinta que escorre no chuveiro e um pouco de verdade – que me fez ficar em paz.

AI DE TI, JOÃO BIDU!

Duas horas em uma sala de cinema, absorvendo cosmo-fragmentos e pensando qual o tipo de tonalizante a Saori usa nas madeixas. É claro que minha cabeça ficou uma loucura! Parece que fui influenciada pelos astros a buscar o item chave da minha desordem. 

Poderia ser a ausência de uma bússola na mochila... Ou talvez uma borra de café derramada no Mapa Mundi... Quem sabe até uma alteração inoportuna na Fórmula Fundamental da Teoria dos Erros...

Mas não. Quisera eu colocar a culpa na maldita cigana que insistiu na ideia estúpida de me falar coisas estúpidas que estavam estupidamente subentendidas na minha mão direita. Que dó! Não era ela a responsável! Nem pela calosidade que envolvia meu dedo médio e pressionava a necessidade de mandá-la tomar no cu, tampouco pelas comutações da ciência.

O réu era a União Astronômica Internacional que, em Agosto de 2006, fez o favor de criar a resolução 5A. Desde então, Plutão deixou de ser um planeta e o horóscopo perdeu sua dignidade na 8ª casa zodiacal.

Não bastasse eu ser fruto de uma reprodução carnavalesca. Tive que nascer justamente no dia em que o Exército invadiu a Companhia Siderúrgica Nacional e transformou Volta Redonda na cidade do caos. Não bastasse nem isso: nasci escorpiana... Regida por uma esfera do sistema solar que há 84 anos é motivo para encheção de saco.

Resumindo: o patinho feio gravitacional, com órbita elíptica e dimensões insignificantes, sempre exerceu influências sobre a minha pessoa. Influências não tão lúcidas, eu diria (como se houvesse necessidade de dizer). Mas, de certo modo, ele agia com segurança, pois conhecia sua identidade: era um planeta. 






O mísero Plutão entrou em crise desde que teve sua definição astronômica alterada. Situação constrangedora! Um “disse-me-disse-redisse-não-disse-mais” científico que ultrapassou os limites espaciais. 

Primeiro, planeta. Depois, planeta-anão. Aí veio resistência de classificação, pressão política, debate, abaixo assinado, protesto, identificação sob o número 134340, publicação de artigo em Harvard, confusão em sala de aula, matéria no G1, análise em blogs... Por sua vez, os humanos regidos pelo pobre coitado se desorientaram nas entrelinhas do horóscopo e entraram num processo recorrente de desequilíbrio e indagações existenciais.

Eu era a prova disso: uma cobaia dos traumas psicológicos provocados neste sujeito indefinido. Ora me mantinha lúcida, ora coava o molho de tomate para eliminar qualquer vestígio de cebola (entenda, eu amo cebola!). Se em determinada ocasião eu analisava Stanley Kubrick, em outros momentos eu traçava correlações entre o cavaleiro de Fênix e os terráqueos.

Ai de ti, João Bidu! Como explicar essa bagunça de poder de ação e expressão de comportamento que os astros exercem nos signos, mediante à situação delicada já exposta acima?

A essa altura do campeonato, Plutão deve estar em prantos, assistindo à órbita dos seus amiguinhos, tentando descobrir se esses cientistas desocupados não tinham nada mais útil para fazer da vida. 

Mas que desgraça! Podiam ter realizado uma conferência para discutir se o som que sai do nariz (vulgo boca) da Anitta é música ou não. Imagina só: “de acordo com os novos critérios da resolução, todo ruído propagado de modo ominoso, com ou sem características anasaladas  e independente do tempo de disseminação ou playback, passa a ser chamado de música-anã”. 

Seria lindo! Mas não... É obvio que eles não perderiam tempo com aquela fanha... Afinal, faz muito mais sentido pegar Plutão pra Cristo. E eu ainda me questiono: por que, meu Deus, por quê? 

Penso que, se um humano nasce com nanismo, não deixa de ser reconhecido como tal. Um humano anão continua incluído na espécie animal do gênero Homo. Ele não passa a ser um humanoide, humano-anão ou Pequeno-Polegar por causa dos seus centímetros a menos. Ainda digo mais: anão é tão normal que faz strip tease e se reproduz em despedidas de solteiro. 












Li em algum lugar que, assim como urano e netuno, Plutão representa uma significativa fonte de mudança e possui uma energia intensamente transformadora. Portanto, já passou da hora de dar um fim nessa palhaçada! Que esses cientistas ociosos lavem roupas ou capinem lotes... Mas deixem meu regente em paz! Acalmem os nervos do cosmo, antes que meu fim seja um cosplay vergonhoso Jéssica Rabitt.


sexta-feira, 8 de agosto de 2014

PSEUDÔNIMO

1- Imagine que nada é real. (Porque, evidentemente, em uma escala considerável, não é). Então dê outro nome a tudo... (Para que você possa falar sobre tudo, afinal, liberdade de expressão costuma ser utopia também).

2- Escolha um pseudônimo para aquele programa de televisão – o qual você considera mais imbecil que a torradinha da Lala, dos Teletubbies.

3- Respire fundo.

4- Agora reflita: Mario Sergio Cortella estava certo ao afirmar que os humanos são os únicos animais que possuem a capacidade de se sentir idiota?

5- Então olhe para si. E busque a razão que te fez chorar e gargalhar, simultâneamente, após assistir ao programa estúpido. 

6- Por fim, confesse: Dalila, querida, você é indescritivelmente humana e idiota. Vá se tratar!

(Dalila Lemos)

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

DELÍRIOS DE TRAVESSEIRO

Daqueles detalhes - que não passam batidos nem em faz de conta - eu sei bem. Conheço milimetricamente o local em que me perco: no escuro, com a noite muda e uma música ressonando em minha cabeça. 

Há delírios noturnos que não se explicam. Eles existem e ponto. Ficam agarrados no travesseiro, fragmentando o cheiro depois que você vai embora dos meus sonhos.

Então eu começo a pensar no quão difícil é lidar com a realidade, com a sensação de que falta alguma coisa além dos móveis naquele quarto vazio.

Não encontro nada nos meus três relógios, a não ser algumas lembranças que giram conforme o movimento dos ponteiros.

Talvez seja ilusão de ótica. De olfato. De pensamento. Ilusão de que, em algum momento, não vou mais precisar racionalizar ilusões: vou simplesmente jogar as chaves fora para que a porta fique sempre aberta.
E se você entrar, vou ter no rosto um sorriso infantil. Vou rasgar os horóscopos. Vou apagar tudo que esteve contido em mim e nas entrelinhas do meu caderno.

E se você ficar, não vou mais brigar com os deuses. Nem alimentar o medo que se alimenta de mim ao final do dia.

(Dalila Lemos)

INTEIRO E NÃO PELA METADE

Se não me engano, foi em 2010 que um amigo me disse que “só vale a pena o que faz bem”. Certo. Digo que vale a pena interromper recorrentemente um texto e até esquecer algumas palavras se for por uma boa causa depois das 23:00h. Porque, às vezes, o celular alerta que você é importante para quem está do outro lado. Mas só às vezes... E só para algumas pessoas.

O silêncio é uma arma: chega com a madrugada, prestes a exterminar todas as expectativas boas que há por dentro. O único sobrevivente é o medo! E é justamente o medo de deixar a própria essência de lado que faz com que a balança mostre o que vale a pena.

Vale a pena a essência. E não o talvez! Porque o talvez é metade... Metade da dose, medida a conta-gotas! Viver um talvez é não viver por inteiro. É se contentar com o meio, sem jamais ter a chance de alcançar as extremidades.

Portanto, eu prefiro que derramem o completo sobre mim. Um sim completo, um não completo. Até mesmo o nunca! Gestos, atitudes, pensamentos e desejos: tudo em uma escala de 100%. 

Sem silêncio e sem talvez. Porque eu não sou feita de metades.

(Dalila Lemos)

terça-feira, 1 de julho de 2014

TRANSBORDA QUE ESVAZIA

Situações me enchem. Penso nisso ao me servir de café forte no início do dia. E às vezes transborda: o café e eu. Mas, de certa forma, acho interessante o modo que a vida encontra de me advertir! Parece um sacode, como se eu fosse passageira de um ônibus estraçalhado que segue em alta velocidade sobre paralelepípedos desgastados. 

Percebo (a cada quilômetro) o quão longe estou do tesouro pirata que esconde as respostas mais exatas para minhas perguntas impróprias. Pra ser sincera, questionar os próprios questionamentos só pode ser atitude de gente ociosa... Porém, acredite: não há tempo que me sobre e, ainda assim, faço isso. 

Preciso de formatação com urgência. Meu HD está cheio de indagações e verbos mal conjugados: Queria do verbo não quero mais. Mas por que isso? Porque sim! Fazia do verbo não faço mais. E por quê? Porque tem que ser desse jeito! 

(Esqueçam a parte do ócio. Devo ser é louca!). 

Só sei que entre tanta loucura, há loucuras mais loucas que eu. E elas me enlouquecem! O jeito é deixar derramar: os desejos, as limitações, o bom senso, o agora e o pra sempre. Se deixar transbordar, uma hora esvazia.

Dalila Lemos